AS IGREJAS E AS POLÍTICAS PÚBLICAS

Qual a relevância de nossas comunidades no contexto social?

O surgimento do COVID-19 e, por consequência, a pandemia, provocou profundas mudanças nas relações sociais no Brasil e no mundo.

O que outrora tínhamos como padrões de convívio social, na atual conjuntura, passaram por modificação. As relações interpessoais tornaram-se virtuais, produzindo certo distanciamento social que ultrapassou as barreiras do contato físico, infelizmente.

A pandemia comprometeu o emprego e renda de muitas famílias. O arrefecimento da economia produziu impactos não apenas nos negócios privados, mas também nas contas públicas.

Os efeitos sobre comunidades vulneráveis foram ainda mais implacáveis, onde o distanciamento social é praticamente inviável e onde o acesso aos serviços de saúde pública, que já não são de excelência, em sua maioria, acabam saturados com o quadro de aumento da demanda.

Tudo isso acaba por acentuar um já conhecido cenário de desigualdade social em nosso país que não pode ser desconsiderado, principalmente, pela Igreja de Cristo e seus líderes.

Embora a finalidade estatutária das igrejas seja religiosa, sob um aspecto jurídico, não há qualquer impedimento para que tais instituições atuem no enfrentamento de problemas públicos em seus determinados contextos.

Inclusive, ao longo da história brasileira, a igreja está presente na prática da assistência aos mais vulneráveis, possuindo uma relevante voz no cenário político, como é o caso da CNBB.

Nos tempos da igreja primitiva, conforme registrado em Atos 2, podemos ver que, além da reunião para comunhão mútua e fortalecimento dos irmãos da fé, havia uma preocupação entre eles em suprir as necessidades uns dos outros.

Entretanto, a grande questão é quando a igreja se fecha em seu ambiente e deixa de enxergar e compartilhar das vulnerabilidades do contexto social no qual está inserida.

A igreja é uma instituição que tem legitimidade plena para enfrentar as ações do mundo das trevas, e mais do que isso: ela tem a capacidade e a promessa de prevalecer sobre elas.

É importante nos atentarmos ao que disse Jesus: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;” (Mateus 16:18).

A questão é como nós, Igreja de Cristo, temos nos comportado vendo constantes avanços do reino das trevas sobre a criação do Senhor? Como temos reagido a tantas investidas de Satanás contra a humanidade, alvo do amor e sacrifício do Senhor?

Não vejo como distintas a atividade da igreja no campo da fé, do cuidado espiritual de seus membros, de sua atuação em políticas públicas sociais na comunidade na qual está inserida.

A igreja precisa refletir a identidade de seu fundador. Cristo foi alguém que se envolveu com as pessoas e seus problemas e, ainda, realizou ações que justamente buscaram amenizar as dores daqueles com os quais encontrava.

Ao falarmos sobre políticas públicas, não podemos deixar de distinguir os termos “politics” e “policy”, que em português são traduzidos apenas como política.

Enquanto politics refira-se à construção do consenso e a luta pelo poder, muito amplamente vista nos noticiários televisivos, o termo policy diz respeito à refere-se à ações por parte de governos que atendam a uma necessidade da sociedade[1].

Apesar da gestão de políticas públicas (policy) ser uma atribuição do Estado, a formulação e propositura de ações de enfrentamento de problemas sociais podem ser demandadas por diferentes atores sociais, inclusive das igrejas.

As igrejas, como organizações da sociedade civil (OSC), constituem-se em importantes atores na arena de políticas públicas sociais. Tais instituições estão inseridas em diferentes tipos de comunidades e conseguem congregar indivíduos das mais diversas culturas.

As igrejas têm a capacidade de estarem presentes em lugares até mesmo desprezados pelo Estado, seja em comunidades de difícil acesso nos morros da capital fluminense, ou em povoados isolados na região amazônica, sendo pontos de esperança para as famílias que ali vivem.

Tais instituições, por meio de sua neutralidade política (pelo menos, em tese) e simplicidade de atuação social, conseguem se estabelecer  e operar em seus contextos comunitários como verdadeiras referências de organização social.

Um dado do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas- IPEA, por meio do Mapa das Organizações da Sociedade Civil (2020) nos mostra que, no Brasil, temos mais de 200 mil organizações religiosas, devidamente formalizadas e em operação no país.

A grande questão, sobre a qual precisamos refletir, é qual o impacto que essas instituições têm produzido nos bairros e na cidade onde se estabeleceram? Qual a efetividade de seus trabalhos além da assistência espiritual, discipulado, fortalecimento da fé daqueles que a procuram? Quais transformações estão ocorrendo na vida daquelas famílias, produzidas pela presença da igreja do Senhor Jesus naquela localidade?

E ainda: como a igreja tem se posicionando diante das manifestações de injustiça, vulnerabilidade, da pobreza, da fome, da violência, do preconceito que diariamente afligem aquela sociedade?

Entendo que quando realizamos a oração que Jesus nos ensinou “Venha o teu Reino”, registrada em Mateus 6:10, e que manifesta o desejo estabelecimento do governo de Deus nesta terra, uma pergunta é fundamental para nossa reflexão: quais características do Reino de Deus são esperadas em seu estabelecimento?

Aprecio muito as palavras de Maurício Cunha[2] quando afirma que a manifestação do Reino, em sua plenitude, produziria resultados além da conversão de vidas e conhecimento sobre Deus.

Os relacionamentos seriam restaurados, práticas como a prostituição e a violência se acabariam. Haveria provisão para todas as pessoas, os enfermos seriam curados, o meio ambiente restaurado e, por fim, a justiça e a paz reinariam na terra.

O autor ainda nos traz a incrível afirmação de que “somente a igreja é capaz de ministrar em relação às necessidades integrais do homem” (CUNHA, 2003, p.18).

Não conseguiremos suprir necessidades dos homens se não as conhecermos. As igrejas não poderão enfrentar problemas das comunidades nas quais estão inseridas, ou seja, promover ações de incidência em políticas públicas, se não se relacionarem com as comunidades, se não se abrirem às pessoas.

A pandemia certamente desnudou uma antiga deficiência das igrejas quanto ao planejamento estratégico das instituições. Também revelou carências na aptidão técnica da gestão financeira de muitas comunidades que, neste momento de restrição de contato social, viram suas receitas caírem drasticamente.

Mais de 70% das organizações da sociedade civil no país apresentaram queda nas receitas institucionais, de acordo com o estudo Impacto da COVID-19 nas OSCs Brasileiras[3], o que evidencia um cenário profundamente desafiador para organizações, incluindo igrejas, na mobilização de recursos para garantir a sustentabilidade da instituição e deu suas iniciativas de impacto social.

Um outro levantamento promovido pelo Invisible College, e que é oportuno citarmos aqui, contou com a participação de mais de 270 igrejas em 26 estados brasileiros.

O estudo revelou que suprir as necessidades básicas de seus membros e auxiliar os mais vulneráveis estão entre as principais preocupações das lideranças.

Outro dado apresentado foi que 10% das igrejas pesquisadas não realizavam nenhum tipo de trabalho social antes da pandemia, e 57% delas iniciaram um novo projeto social durante a pandemia, demonstrando uma tendência de despertamento das comunidades para uma atuação em políticas públicas sociais, além do aspecto religioso.

Em virtude do que foi apresentado, são inúmeras as oportunidades que as igrejas têm de reafirmar sua relevância comunitária, principalmente na atual conjuntura social que vive os efeitos produzidos pela quarentena.

Cabe-nos, como legítimos representantes de Cristo, manifestar urgentemente, as características do Mestre. E que a sociedade veja Jesus não apenas em nossos cultos, mas, principalmente, quando nos colocarmos na linha de frente, combatendo a injustiça e cuidando do homem de forma integral.

Deus abençoe!


[1] SECCHI, L. Políticas públicas : conceitos, esquemas de análise, casos práticos. Cengage Learning, 2013

[2] O Reino entre nós. Transformação de comunidades pelo evangelho integral. Ultimato (2003)

[3] Coordenado pela Mobiliza e ReosPartners, 2020

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